quarta-feira, 11 de abril de 2012

Marcos 14:32-36 - O Jardim das Aflições Parte I

Série de Sermões em Marcos
Passagem: Marcos 14:32-36
Título: O Jardim das Aflições Parte I
Pregado na manhã de Domingo, do dia 08 de Abril de 2012,
na Igreja Reformada em Campinas Soli Deo Gloria,
por Gustavo Barros

Versão em vídeo

Marcos 14:32-36  32 Então foram para um lugar chamado Getsêmani, e Jesus disse aos seus discípulos: "Sentem-se aqui enquanto vou orar". 33 Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a ficar aflito e angustiado. 34 E lhes disse: "A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem". 35 Indo um pouco mais adiante, prostrou-se e orava para que, se possível, fosse afastada dele aquela hora. 36 E dizia: "Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres".

Introdução:
Não há ilustração alguma que faça jus ao que Jesus passou naquele jardim. Para aqueles momentos que antecederam a crucificação, não há ilustração para o que Jesus passou. Há algum tempo atrás, assisti um trailer sobre um homem que trabalhava numa ferrovia e preferiu a morte do seu filho ao invés da morte de toda a tribulação daquele trem. Porém, vejo essa comparação como sendo ridícula, pois ela ignora a coragem e a valentia de Jesus em caminhar em direção à cruz – Jesus não foi uma pobre vítima. O filme também ignora os sofrimentos de Jesus em tomar do cálice da ira de Deus.
O que estamos prestes a contemplar é algo que a nossa mente é incapaz de entender. Somos incapazes de entender, pois somos pecadores!
Sinto dificuldade e me sinto incapacitado para pregar sobre essas horas da vida de Jesus. Tenho medo de, por causa de minha carnalidade, tirar o foco dos momentos em que podemos ver o coração de Jesus mais claramente. Essa passagem, em minha opinião, é uma autopsia biográfica na qual a parte mais interna do coração de Jesus é arrancado e exposto para que possamos sentir ao máximo, o quanto é que possível para nós, a dor e a angustia que o nosso Salvador passou naquele jardim.
Faço minha as palavras de Spurgeon, “Chegamos assim até a porta do jardim do Getsêmani, portanto, entremos; porém, primeiro, tiremos os sapatos, como Moises quando viu a sarça ardendo com fogo que não se consumia. Certamente podemos dizer com Jacó: ‘Que terrível é esse lugar!’ Temo diante da tarefa que tenho em minha frente, pois, como meu débil discurso poderia descrever essas agonias, para as quais os fortes clamores e as lágrimas seriam escassamente uma adequada expressão? Quero, juntamente com vocês, repassar os sofrimentos de nosso Redentor, porém, oh, que o Espírito de Deus nos impeça qualquer pensamento fora de lugar ou que nossa língua expresse uma só palavra que seja depreciativa para Ele, seja em Sua humanidade imaculada ou em sua gloriosa Deidade.(Charles Spurgeon, A Agonia no Getsêmani -1º sermão especial de Páscoa)

Esse é um texto para que os cristãos olhem, leiam, escutem, chorem, e se prostrem diante desse magnífico Salvador. Contemplemos: 1 – a santidade de Jesus; 2 – o desespero de estar afastado da presença do Pai; 3 – o silêncio do Pai mostrando seu amor pela Sua própria glória em nossa salvação; 4 – quão terrível e horroroso é o nosso pecado.


Contextualização:
Após a refeição e interpretação da ceia da Páscoa, Jesus partiu com Seus discípulos para o Monte das Oliveiras (v.26) – é no caminho para esse lugar que Jesus prometeu que todos os Onze iriam abandoná-Lo (v.27). Eles contestaram e declararam fidelidade até o fim (v.31). Esses momentos (14:32-42) que antecedem a prisão e o julgamento de Jesus são de extrema importância. São esses momentos no Getsêmani que irão nos permitir entender o que será desvendado no decorrer dessa trama.
A cena no Getsêmani é um estudo da fraqueza do homem, até mesmo da fraqueza dos discípulos mais confiáveis. Mas isso é apenas a parte superficial da trama. O grande foco está no próprio Jesus, e mais especificamente no relacionamento entre Ele e o Pai.(R.T. Frace, TNIGTC –The Gospel of Mark, Eerdmans, pg 580)   
É nesse jardim que nós contemplamos a seriedade e a severidade dos nossos pecados. É nesse jardim que nós contemplamos a santidade de Jesus.

Divisão do Estudo:
i – o jardim das aflições (VS.32-34)
II – A oração de jesus (VS.35-36)

i – o jardim das aflições (VS.32-34)
32 Então foram para um lugar chamado Getsêmani, e Jesus disse aos seus discípulos: "Sentem-se aqui enquanto vou orar". 33 Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a ficar aflito e angustiado. 34 E lhes disse: "A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem".

v.32 Então foram para um lugar chamado Getsêmani
Após celebrarem a Páscoa Jesus e Seus discípulos (onze discípulos, pois Judas já havia abandonado o grupo) partiram para o Monte das Oliveiras e de lá eles foram para outro lugar.

um lugar chamado Getsêmani – Marcos e Mateus chamam o lugar de Getsêmani, enquanto João (18:1,26) chama o lugar de ‘jardim’ (Gk. κῆπος). Por isso podemos concluir que o lugar era o Jardim do Getsêmani.
Getsêmani – o significado no hebraico é ‘prensa/lagar de azeite’. Devido ao plantio de oliveiras (Monte das Oliveiras), esse era um lugar onde as azeitonas eram esmagadas para a obtenção do azeite.
·         Esse jardim ficava fora de Jerusalém, pois era ilegal ter plantios dentro da cidade por causa do esterco para adubar o solo.
·         Era um lugar privado. Provavelmente cercado.
·         João 2 e Lucas 22:39 falam que Jesus costumava ir para esse lugar. Portanto o que tudo indica é que esse jardim pertencia a um seguidor de Jesus. É por isso que Judas saberá aonde encontrá-los.
·         Dentro desse jardim havia uma gruta/caverna (11 [largura] x 18 [comprimento] metros). Nessa caverna ficava a prensa/lagar – lá havia uma cisterna para água e eles podiam acender uma fogueira e se aquecerem.

É dentro dessa gruta que Jesus deixa Seus discípulos.

Por que o Jardim do Getsêmani? Por que Jesus vai para esse lugar?
Spurgeon, provavelmente, acertou quando ele disse, “a principal razão para ir ao Getsêmani foi que era um lugar muito conhecido e frequentado por Ele, e João nos diz: ‘e também Judas, o que o entregava, conhecia aquele lugar.’ Nosso Senhor não desejava se esconder, não precisava ser perseguido como um ladrão, ou ser buscado por espias. Ele foi valorosamente ao lugar onde seus inimigos conheciam que Ele tinha o costume de orar, pois Ele queria ser tomado para sofrer e morrer. Eles não o arrastaram ao pretório de Pilatos contra sua vontade, mas sim que foi com eles voluntariamente. Quando chegou a hora de que fosse traído, ali Ele estava, num lugar onde o traidor poderia o encontrar facilmente, e quando Judas o traiu com um beijo, sua face estava pronta para receber a saudação traidora... Quando nosso Senhor terminou de comer a Páscoa e celebrar a ceia com seus discípulos, foi com eles ao Monte das Oliveiras, e entrou no jardim do Getsêmani. O que o induziu a selecionar esse lugar para que fosse a cena de sua terrível agonia? Porque haveria de ser arrastado ai por seus inimigos de preferência a qualquer outro lugar? Por acaso é difícil que entendamos que assim como num jardim a auto-complacência de Adão nos arruinou, também em outro jardim as agonias do segundo Adão deveria nos restaurar? O Getsêmani ministra as medicinas para curar os males que foram a consequência do fruto proibido do Éden.(Charles Spurgeon, A Agonia no Getsêmani -1º sermão especial de Páscoa)

Jesus foi para o jardim onde as azeitonas eram prensadas para se obter o azeite. O azeite simboliza a benção de Deus. É aqui que o processo de esmagar o Servo começa para que no fim nós pudéssemos receber da benção, do azeite, do óleo da alegria – o Espírito Santo!
É no Getsêmani – onde as azeitonas eram prensadas e esmagadas - que o nosso Senhor começará a sentir a pressão dos nossos pecados, esmagando e moendo o perfeito Servo Sofredor.

v.32 e Jesus disse aos seus discípulos: "Sentem-se aqui enquanto vou orar"
Dentro da gruta no Jardim do Getsêmani, Jesus revela o foco deles estarem naquele lugar: ORAÇÃO! O relato paralelo em Lucas nos mostra que Jesus pediu aos discípulos que orassem - Lc 22:40 - 39 Como de costume, Jesus foi para o monte das Oliveiras, e os seus discípulos o seguiram. 40 Chegando ao lugar, ele lhes disse: "Orem para que vocês não caiam em tentação".

Sentem-se aqui – os discípulos ficariam como vigias – eles iam orar e não iam deixar que ninguém atrapalhasse aquele momento de Jesus com o Pai.

enquanto vou orar --- Marcos já havia nos falado de momentos de oração de Jesus (1:35;6:46) – e sempre como um momento pessoal, momento de isolamento. Bem diferente dos homens religiosos de Israel (12:40) para Jesus a oração era algo pessoal.
** Isso não quer dizer que não precisamos orar em público e juntos como igreja, pois a Bíblia ordena que oremos como igreja, mas a oração pública deve fluir dos momentos solitários com o Pai.

A prioridade de Jesus no meio da mais severa tribulação que o mundo já viu ou verá foi a oração. Ryle diz, “Jamais encontraremos receita melhor do que essa, se quisermos suportar com paciência as aflições. A primeira pessoa a quem devemos ir, em nossas aflições, é Deus, A primeira queixa que devemos exprimir deve ser em forma de oração... O conselho de Tiago é sábio e de grande peso: ‘Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração’ (Tg 5.13).(J.C. Ryle, Meditações no Evangelho de Marcos, Fiel, pg 189)

Jesus sabe que oração é necessária na vitória sobre as tentações. A oração é o meio pela qual a graça vitoriosa nos é dada, por isso Ele sai para orar e ordena que os outros orem.

v. 33 - Levou consigo Pedro, Tiago e João – Jesus levou os 3 discípulos que eram mais próximos dEle para um lugar mais afastado. Jesus começa um processo de separação.
Vários motivos levaram Jesus a trazer esses 3 homens:
1 – Jesus tinha consigo 3 testemunhas, esses homens iriam escrever e passar os relatos do que ocorreu dentro daquele jardim [na boca de duas ou três testemunhas].

2 – De acordo com Mateus 26:38, Jesus levou os 3 discípulos para que eles orassem e vigiassem com Ele. Jesus queria a ajuda dos Seus discípulos nessa hora tão terrível.

3 - Esses 3 homens já haviam contemplado a glória de Jesus na ressurreição de uma garotinha (5:37) e no Monte da Transfiguração (9:20). Agora é a vez deles contemplarem a angústia do Filho de Deus. Eles não veriam só a glória, mas também a dor e o sofrimento de Jesus.

4 – Pedro, Tiago e João já haviam especificamente declarado que eles queriam participar dos sofrimentos de Jesus (10:38-39; 14:29,31). Agora Jesus lhes dá a oportunidade de cumprir as suas bravas e valentes palavras.
Cristo os levou para que eles ficassem perto, e pudessem ver a luta que Ele teve com o batismo de sangue e o cálice amargo, para convencê-los de que eles não sabiam o que haviam pedido. É justo que os que são mais confiantes devam ser os primeiros a serem tentados, para que possam se tornar sensíveis à sua estupidez e suas fraquezas.(Matthew Henry´s Commentary on Mark, Hendrickson, pg 446)

 “No Monte das Oliveiras, como no Monte da Transfiguração, esses três irão provar serem incapazes de compartilhar totalmente daquela experiência, mas eles serão capazes de registrar o suficiente para que esse momento tão importante seja lembrado na tradição cristã.(R.T. Frace, TNIGTC –The Gospel of Mark, Eerdmans, pg 582)

v.33 e começou a ficar aflito e angustiado (καὶ ἤρξατο ἐκθαμβεῖσθαι καὶ ἀδημονεῖν)
É aqui que começa a intensificar a realidade da Sua morte. Ele começa a caminhar para um lugar mais solitário naquela noite e começa a sentir o peso do que está para ocorrer. O Pai começa o processo de esmagar o Servo de Isaias 53. O profeta Isaias disse que o Messias era um ‘homem de dores/tristeza’ (53:3) e é aqui no Getsêmani que as dores começam a encher o seu cálice. Não as dores dos açoites que estavam para chegar, mas as dores e as tristezas da consequência do nosso pecado! É o nosso pecado que fez dEle um homem de dores.

aflito --- Gk.  ἐκθαμβέομαι --- tem o sentido de atônito [espantado]. Usado para quando uma pessoa fica aterrorizada ao ver algo (9:15;16:5).

angustiado – Gk. ἀδημονέω – perturbado emocionalmente, a mente fica confusa causando um desconforto intenso no ser da pessoa.

O que Jesus vê para de repente ficar aflito e angustiado? Ele vê a realidade e a proximidade do cálice da ira. Ele começa a ver a cruz como nunca antes. Por isso ele começa a ficar aflito [atônito/aterrorizado] e isso gera nEle angustia – a mente começa a ficar perturbada.

O choque de Jesus aqui, no entanto, não é causado por um evento já testemunhado, mas pelo prospecto do que está por vir... Jesus está perturbado, pois o cumprimento de Suas previsões se aproxima.(R.T. Frace, TNIGTC –The Gospel of Mark, Eerdmans, pg 582)

Ele está começando a experimentar a morte! Essa morte não é somente a física, mas a nossa morte espiritual – a separação de um relacionamento perfeito com o Pai!

v.34  E lhes disse: "A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal.” (NVI) / ”E disse-lhes: A minha alma está profundamente triste até a morte” (ACF)  [καὶ λέγει αὐτοῖς· περίλυπος ἐστιν ἡ ψυχή μου ἕως θανάτου]
Aqui entra um terceiro adjetivo para descrever o que Jesus está passando nesse momento.
profundamente triste – Gk. περίλυπος – como nós vimos em 14:19, os discípulos ficaram tristes (lypeo -- sentir uma dor emocional profunda [profunda tristeza], ou seja, uma grande dor. lypéō é uma dor muito intensa e, portanto, é usado até mesmo para com a dor de parto [cf. Gn 3:16, LXX]” [http://concordances.org/greek/3076.htm]). Mas aqui Jesus está perílypos. O prefixo peri indica que Jesus está totalmente cercado por essa dolorosa tristeza. Jesus está envolto em tristeza e cercado de dores por todos os lados.

Jesus sabia da Sua morte desde o começo do Seu ministério [2:20; 8:31;9:31;10:33-34; 14:23-25]. Jesus sabia que Ele havia vindo para a terra para morrer. Ele sabia que Ele seria o Cordeiro pascal que seria sacrificado pelo pecado e no lugar de muitos. Então por que Ele de repente fica tão abalado e tão angustiado com a realidade do que Ele mesmo já sabia que viria? Por que Jesus fica envolto de dores se Ele já sabia da Sua morte?

Jesus sabia que Ele haveria de tomar sobre Si o pecado do Seu povo, Ele sabia que tinha que receber no Seu corpo a ira do santo Deus, mas Ele não sabia a hora exata que isso iria ocorrer (13:32-33). É aqui no Jardim do Getsêmani que as cortinas são abertas e a hora é revelada ao Filho. É aqui que Ele começa a sentir o peso de ser entregue nas mãos de Deus. É nesses momentos que Jesus começa sentir o peso de carregar o pecado no Seu corpo santo.

Não foi o temor dos sofrimentos físicos da morte que arrancou de Seus lábios aquelas expressões. Foi o senso da enorme carga da culpa humana a qual, naquele momento, começava a exercer pressão sobre Ele de uma maneira peculiar. Foi o senso de um indizível peso, o peso de nossos pecados e transgressões que, naquela ocasião, estava sendo lançada sobre Ele de maneira toda especial. Ele estava sendo feito ‘maldição em nosso lugar’. Ele começava a levar sobre Si as nossas tristezas e as nossas dores, de acordo com a aliança que Ele viera cumprir nesse mundo. Aquele que não conheceu pecado estava sendo feito ‘pecado por nós’ (II Co 5:21)... Essas foram as razões para a sua profunda tristeza.(J.C. Ryle, Meditações no Evangelho de Marcos, Fiel, pg 188)

Nosso Senhor foi alcançado pelo horror diante do espetáculo do pecado que foi depositado sobre Ele e a vingança que era exigida por sua causa.(Spurgeon)

A realidade da injustiça de que Ele, em Seu corpo santo, teria de levar os nossos pecados, a realidade de que, apesar de ser perfeito e totalmente santo, Ele teria de receber a ira de Deus em Seu corpo, essa realidade começou a pesar tanto em Seu ser, começou a consumi-Lo de tal forma por dentro que quase O matou!

A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal.” (NVI) / ”E disse-lhes: A minha alma está profundamente triste até a morte” (ACF)

Jesus quase foi morto antes da cruz devido ao peso da angustia e aflição que vieram sobre Ele. Ao entrar no jardim, onde as azeitonas eram prensadas, o Pai começa a esmagar o Filho ao Lhe mostrar que a hora do abandono estava próxima, a hora que Ele levaria em si todos os pecados do Seu povo começava a ser revelada e isso esmaga Seu interior de tal forma que Jesus sente a morte.

** Ninguém jamais saberá ou soube o que Jesus passou. O Getsêmani é algo único. Nenhum homem jamais passará por tamanha aflição (13:19-20).
As aflições são tantas que a tristeza é mortal. Por isso o Pai abrevia o tempo. Não só abrevia como também envia ajuda.

Lc 22:43-44 Apareceu-lhe então um anjo do céu que o fortalecia. Estando angustiado, ele orou ainda mais intensamente; e o seu suor era como gotas de sangue que caíam no chão.
A aflição e a angústia dentro de Jesus são tão fortes, Ele fica tão perturbado ao ver a realidade de que a hora havia chegado quando Ele teria que se tornar pecado em nosso lugar, que o nosso Salvador começa a suar sangue. Isso é chamado de hematidrose. A hematidrose é um fenômeno raríssimo - uma fraqueza física excepcional onde o corpo inteiro dói, acompanhada de um abatimento moral violento causada por uma profunda emoção, por um grande medo. Apenas um ato destes pode causar o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas onde o suor anexa-se ao sangue formando a hematidrose. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hematidrose)

Bem longe de navegar serenamente através das Suas aflições como um ser superior sem se preocupar com esse mundo, Ele está quase morto em angústias.(http://www.soniclight.com/constable/notes/pdf/mark.pdf)

A espada do Senhor foi levantada contra o Pastor. Jesus começa a sentir o peso de carregar o pecado em Seu santo corpo. Por isso Ele começa a ficar angustiado e cercado pelas piores dores que alguém poderia sentir. Ele quase morreu ao começar a sentir o peso do nosso pecado sobre Ele.

“Fiquem aqui e vigiem" [μείνατε ὧδε καὶ γρηγορεῖτε]
Sob essa nuvem negra de apreensões Jesus clama pelo apoio dos Seus discípulos para eles estarem por perto e se manterem acordados enquanto Ele orava.(R.T. Frace, TNIGTC –The Gospel of Mark, Eerdmans, pg 583)

A pior das aflições que o mundo já viu e verá, juntamente com o chamado a vigiarem nos lembra do discurso apocalíptico no cap. 13. Essas são as últimas horas dos últimos dias – o fim da antiga criação está para ocorrer.

FIQUEM AQUI --- Eles não podem caminhar com Ele. Onde Ele está indo Ele precisa ir sozinho!
Ele irá aonde os ‘muitos’ não poderão ir, para que os ‘muitos’ nunca tenham de ir lá.(Peter Bolt, The Cross From a Distance, IVP, pg.110)
Aqui o nosso valente Salvador começa a Sua jornada pela escuridão do Getsêmani sozinho e angustiado para decidir o destino do mundo. “O destino dos ‘muitos’ está em jogo nesse exato momento.(Bolt, pg 110)

II – A oração de jesus (VS.35-36)
35 Indo um pouco mais adiante, prostrou-se e orava para que, se possível, fosse afastada dele aquela hora. 36 E dizia: "Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres".

V.35Indo um pouco mais adiante, prostrou-se
Agora Ele já está sozinho! Os três mais próximos ficam para trás e Jesus vai aonde ninguém mais pode ir.
Chegamos realmente ao ‘santo dos santos’, nenhum outro lugar revela o coração de Jesus como esses versículos. A vulnerabilidade do nosso Senhor é mostrada a todos.

[Alguns podem questionar: ‘Se Jesus estava sozinho como sabemos o que passou ali?’ Duas respostas: 1) era normal orar em voz alta. Apesar do sono, um deles poderia ter escutado a queda e a oração de Jesus (Lucas 22:41 nos fala a distância de Jesus para com os 3); 2 – Jesus poderia ter relatado tudo o que ocorreu naqueles momentos durante Seu tempo com Seus discípulos após a ressurreição.]

prostrou-se -- Gk. πίπτω – cair. O peso sobre Jesus é tanto que Ele cai no chão e se prostra diante do Pai. O peso do seu pecado, do meu pecado começa a pesar de tal forma sobre Jesus que Ele cai. Ao mesmo tempo que Ele cai, Ele também se prostra diante do Pai com Seu rosto ao chão.
A forma de orar no judaísmo era de pé com as mãos levantadas. As pessoas só se prostravam quando estavam em extrema angústia e aflição. “Assim como outros [personagens] na história em Marcos caíram diante de Jesus para fazerem a suas petições, (5:22;7:25) Ele agora cai diante do Pai para orar.(Zondervan Illustrated Bible Backgrounds Commentary – Mark, pg 288)

Esse é o estado que nossos pecados causaram a Jesus – o Filho de Deus caiu prostrado e aflito diante tamanha dor. A dor e o sofrimento que eram nossos!

v35 Indo um pouco mais adiante, prostrou-se e orava para que, se possível, fosse afastada dele aquela hora
O nosso Salvador está em uma aflição mortal, angustiado e aterrorizado. Suas roupas têm sangue por causa da aflição, seu suor era vermelho e Ele está caído. No chão, o nosso Salvador ora com gemidos e gritos (Hb 5:7 Durante os seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em alta voz e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, sendo ouvido por causa da sua reverente submissão. 8 Embora sendo Filho, ele aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu).
A hora, a tão esperada hora estava chegando.
Essa era a hora que Ele ainda não conhecia pessoalmente (13:32), mas que Ele sabia que viria. A hora em que a adoração verdadeira não estaria mais presa a um lugar (Jo 4:23). A hora que seus inimigos esperavam (Jo 7:30). A hora de levar sobre Si os nossos pecados!

O versículo 36 nos mostra como Jesus orou pedindo para que, se possível, aquela hora fosse afastada:
V.36 E dizia: "Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres".

E dizia: "Aba, Pai” --- [ “e dizia” – o verbo no imperfeito tem o sentido de que Jesus continuava dizendo ] Esse modo de se aproximar de Deus era algo totalmente fora do comum, pois os judeus achavam esse título uma falta de respeito para com Deus. São essas palavras que nos mostram a razão por tamanha aflição – os nossos pecados estavam prestes a separar o Filho Amado de um relacionamento eterno com o Aba Pai. O que mais dói em Jesus é saber que Ele será feito maldição e será separado do lindo e perfeito relacionamento que Ele tinha com o Pai.
Aba Pai – não tem o sentido de uma criancinha falando com o pai, mas fala de um relacionamento intimo e único com Deus. “O termo expressa uma intimidade respeitosa de um filho para com um pai, numa família patriarcal.” (R.T. Frace, TNIGTC –The Gospel of Mark, Eerdmans, pg 584)

Jesus teve vários encontros terríveis: No começo do Seu ministério, Jesus se encontrou com satanás (1:13); se encontrou com pessoas cheias de demônios (2:21-26; 5:1-17); se encontrou com mestres da lei que O acusaram de operar por meio de demônios (3:22); se encontrou com uma tempestade fatal (4:35-41); se encontrou com todos os homens que tanto ansiavam tirar a Sua vida (12:1-40). Porém, nenhum encontro foi tão terrível como esse último encontro com o Pai! Nenhum encontro trouxe tanta angústia e tamanha aflição como esse encontro com o Pai no Getsêmani. Pois é aqui que o Pai começa a esmagá-Lo, é aqui que o Pastor começa a ser ferido pelo Pai com os nossos pecados!

tudo te é possível --- Jesus sabe que para Deus nada é impossível! O contexto é de fundamental importância, pois Jesus está falando da salvação do povo de Deus.   
Essa confiança de que Deus pode fazer o impossível lembra o leitor de que Ele já havia prometido que Deus fará o impossível ao ajuntar os homens no Reino de Deus através da morte do Filho do Homem como um resgate por muitos (10:45). Se é realmente assim, não haverá outra maneira; Jesus terá de tomar do cálice. (Peter Bolt, The Cross From a Distance, IVP, pg.110)

Jesus está aflito e com uma tristeza mortal. Suas vestes estão manchadas de vermelho do sangue que veio com o suor. A realidade da hora de levar o pecado do Seu povo sobre o corpo santo e receber a ira de Deus O leva cair no chão e clamar ao Pai que, se fosse possível, o Senhor agisse de outra forma, salvasse o Seu povo de outra maneira.

Afasta de mim este cálice” – O ‘cálice’ representa e simboliza nada menos que a ira de Deus [Jr 25:15; Sl 75:8; Is 51:17 (Desperte, desperte! Levante-se, ó Jerusalém, você que bebeu da mão do Senhor o cálice da ira dele, você que engoliu até a última gota, a taça que faz os homens cambalearem)]. Poderia simbolizar o destino de alguém (Sl16:5).

Jesus já havia falado desse cálice em 10:38-39, mas lá o cálice era só uma expectativa, por isso Jesus falou com calma. Mas aqui o cálice é uma realidade próxima e isso faz com que Ele clame por uma outra alternativa.

FOI ISSO FRAQUEZA DA PARTE DO NOSSO SALVADOR?
Quão impossível é para nossas mentes entender tamanha aflição. Nós lutamos todos os momentos e batalhamos constantemente para fazermos o bem, para não pecarmos. Mas com Jesus era o oposto – Ele era tão santo e tão puro, que é justo e natural que haja essa angústia e profunda aflição apenas no pensar que Ele receberia o nosso pecado, que Ele seria feito pecado em nosso lugar. Isso não é fraqueza! Isso não é uma mente dividida! Isso não é temor da morte! Isso se chama santidade! Isso se chama ódio para com tudo o que é pecaminoso. E isso as nossas mentes ainda não conseguem entender.
Seria estranho se o meu Salvador não reagisse assim. Ele era totalmente Deus, portanto, Ele era totalmente santo, por isso a luta para receber em Si os nossos pecados!

Essa é com certeza a grande tentação de Jesus. Lucas 4:13 Tendo terminado todas essas tentações, o diabo o deixou até ocasião oportuna.
Essa é a ocasião oportuna! Satanás não quer que Jesus vá para cruz, satanás não quer a morte de Jesus. E aqui é a pior de todas as tribulações. Jesus é tentado e testado!

não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres --- Essa é a vitória! A vitória de Jesus vem através da submissão. Quão duro foi sair aquelas palavras, não por causa do medo e nem por causa de um coração obstinado da parte de Jesus, mas por causa da Sua santidade. Quão dolorosa foi aquela vitória em se submeter à vontade do Pai.

Jesus coloca em prática na Sua oração o que Ele havia ensinado aos Seus discípulos: Mt 6:9-10 Vocês, orem assim: ‘Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.

Essa é uma linda e maravilhosa imagem do Servo Sofredor – ensanguentado, moído, aflito e angustiado e ainda assim submisso à vontade de Deus. O Filho Amado se submete à vontade do Pai, não como um pobre coitado, mas como um Guerreiro vencedor.

Isso foi o que Ele ensinou a todos Seus discípulos:
Mc 8:34 Então ele chamou a multidão e os discípulos e disse: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.

Esse é o padrão que Ele nos deixou! Por mais duro que seja o que estamos passando ou iremos passar, por mais doloroso, por maior angustia e aflição que possa nos ocorrer,  a nossa atitude deve ser a mesma do nosso amado Senhor e Salvador: ‘Não o que eu quero, mas o que Tu queres’!

Que toda ação e decisão tomada seja baseada nesse principio que foi tão claramente nos ensinado nesses últimos momentos de vida do nosso Senhor Jesus Cristo: Pai, a Sua vontade seja feita! Seja na escolha de um trabalho, de uma igreja, na decisão de escola, na decisão no número de filhos, nas coisas que podem parecer mais simples, que possamos ter essa afirmação em nossas orações!

Sl 25:4 Mostra-me, Senhor, os teus caminhos, ensina-me as tuas veredas.
Is 55:8-9 "Pois os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos", declara o Senhor. Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos e os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos.

Os caminhos e a vontade do Senhor são diferentes das nossas, pois são melhores! Mas muitas trazem mais dores e tem um custo mais alto, mas vale à pena!

E qual é a vontade de Deus? Is 53:10 Contudo foi da vontade do Senhor esmagá-lo e fazê-lo sofrer
Por isso há o silêncio! Ah Deus, muito obrigado pelo silêncio!

O mais complexo e maravilhoso disso tudo é que todos os requisitos para uma oração eficaz são encontrados em Jesus (11:22-25). Mas mesmo assim o Deus para quem tudo é possível mostra como é a vontade dEle que reina no final. “O Deus que pode mover montanhas nem sempre moverá o cálice.(S.E. Dowd, Prayer)

Obrigado pelo silêncio! Obrigado, meu Jesus, por clamar pela vontade de Deus!

Quando a hora é revelada Jesus pede que, se possível, aquela hora fosse afastada. Ele pede por outro meio – se possível. Mas não será possível, pois o sangue do Cordeiro é o que pagará a nossa libertação!

CONCLUSÃO:

Consideremos com muita atenção os sofrimentos de Jesus e as Suas dores por causa dos nossos pecados, pois isso é de muito uso em nossas vidas!
Quão terrível é o pecado, e mesmo assim muitos de nós gostamos de cultivar certos pecados e os ter como animais de estimação. Quanta aflição trouxe sobre o nosso Senhor nossos pecados e mesmo assim não nos preocupamos em como falamos e o que colocamos diante de nossos olhos. Que possamos ser acordados para a realidade do quão horrível é o pecado e quão amoroso foi o nosso Deus!

Podemos entreter como algo leve o pecado, quando vemos o que o ele (o pecado - embora imputado) fez sobre o Senhor Jesus? Será que o pecado pode se assentar de forma tão confortável sobre nossas almas, quando ele pesava de forma tão intensa sobre a alma de Cristo? Jesus estava em profunda agonia por causa dos nossos pecados, por que nós nunca sentimos agonia para com as nossas iniquidades? Se Cristo assim sofreu por causa dos nossos pecados, devemos, portanto, nos armar com a mesma mente.(Matthew Henry´s Commentary on Mark, Hendrickson, pg 446)

 “Devemos perceber a agonia do nosso Senhor, no jardim de Getsêmani, a excessiva pecaminosidade do pecado. Esse é um assunto a respeito do qual os pensamentos dos cristãos estão sempre muito abaixo do que deveriam estar. A maneira superficial e negligente com que abordamos tais pecados, como a linguagem suja, a quebra do descanso dominical, a mentira e coisas semelhantes, serve de dolorosa evidência da baixa condição moral em que se encontram os homens. Portanto, que as memórias despertadas pelo Getsêmani produzam em nós um efeito santificador. Sem importar qual a atitude de ouras pessoas, jamais façamos do pecado motivo de zombaria. (J.C. Ryle, Meditações no Evangelho de Marcos, Fiel, pg 189)

Oh, se pudéssemos descrever o horror do pecado não haveria nenhum de vocês que estaria satisfeito de permanecer no pecado nem por um momento; creio que essa manhã, se elevaria dessa casa de oração um lamento e gemidos tais que poderiam ser ouvidos nas próprias ruas, se os homens e as mulheres aqui presentes que estão vivendo em pecado pudessem entender realmente o que é o pecado, e qual é a ira de Deus que se acumula sobre eles, e quais serão os juízos de Deus que muito logo os rodearão e os destruirão, Oh alma, o pecado deve ser uma coisa terrível se ele aplacou dessa forma a nosso Senhor. Se a pura imputação do pecado produziu suor sanguinolento no santo e puro Salvador, o que produzirá o pecado mesmo: Evitem-lhe, não passem perto dele, afastem-se de qualquer coisa que pareça ele, caminham com muita humildade e cuidado com seu Deus para que o pecado não os cause dano, porque é uma praga mortal, uma peste infinita.” (Spurgeon)

O cálice não será passado. A oração do nosso Senhor foi respondida com a vontade do Pai sendo executada. Na nossa trama, Jesus receberá o golpe final. Ele tomará a última gota do cálice da ira de Deus. Mas sabemos que por causa dessa perfeita obediência, por causa do modo como Ele termina a oração – se submetendo a vontade de Deus – Jesus Cristo foi vindicado! O Servo Sofredor foi vindicado pelo Pai e recebeu a ressurreição, vencendo o último inimigo – a morte!

Is 53:10-11 Contudo foi da vontade do Senhor esmagá-lo e fazê-lo sofrer, e, embora o Senhor faça da vida dele uma oferta pela culpa, ele verá sua prole e prolongará seus dias, e a vontade do Senhor prosperará em sua mão. Depois do sofrimento de sua alma, ele verá a luz e ficará satisfeito; pelo seu conhecimento meu servo justo justificará a muitos, e levará a iniquidade deles.

O Filho foi justificado, Ele tomou sobre Si os piores dos nossos pecados, triunfou na cruz e venceu a morte. E é através da Sua morte e ressurreição que nós somos justificados diante desse santo e justo Deus: Rm 4:25 Ele foi entregue à morte por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação.
Por causa dessa justiça que recebemos por meio de Jesus nós podemos nos aproximar de Deus e chama-Lo, assim como o Filho Amado, de Aba Pai! Rm 8:15 Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temer, mas receberam o Espírito que os adota como filhos, por meio do qual clamamos: "Aba, Pai".

Foi no Jardim das Aflições que o Filho sentiu como nunca antes o peso e a penalidade dos nossos pecados. Apesar da dor, Ele se submeteu a vontade de Deus – a vontade do Pai foi de esmagá-Lo para que, por meio da Sua perfeita obediência, nós pudéssemos chamá-Lo de Aba Pai: ter um relacionamento íntimo com o Deus criador!

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